Garrafa Pet vira Papel Sintético

Categoria(s): Notícias, Soluções Inovadoras, Sustentabilidade. Data de Publicação: 15/05/2010

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A garrafa PET de refrigerante usada hoje pode se transformar em caderno amanhã. Uma equipe de cientistas brasileiros criou o primeiro papel sintético do mundo, feito com base em plásticos reciclados.


DETRITOS_Coelho, presidente da Vitopel, diz que a engenhosidade está em aproveitar todos os tipos de plástico na produção

Quem estudou usando livros de segunda mão sempre sonhou com folhas que não rasgam, não molham e que, de quebra, ainda podem ser lavadas. Demorou, mas um papel assim já foi inventado – e por brasileiros. Durante dois anos, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e engenheiros da Vitopel, fabricante de embalagens, ambas do interior paulista, buscaram um jeito de reciclar os refugos de produção da empresa, instalada nas cidades de Votorantim e Mauá (SP). Foi assim que acabaram por descobrir a receita do Vitopaper, um papel sintético feito de lixo plástico, mas com aparência e toque do papel-cuchê. Fruto de um investimento de US$ 4 milhões da Vitopel e de um aporte da Fapesp, fundação de apoio à pesquisa, a invenção foi patenteada e pode ser vendida ou produzida pela companhia em qualquer parte do planeta.

Apesar de ser plástico, o novo papel permite a escrita a lápis e caneta, além da impressão em gráficas. Pode ser usado na fabricação de livros, outdoors e banners, e também na confecção de material de papelaria. Além de reunir todas as condições para ganhar as aplicações normais, o novo papel tem algumas vantagens. Uma delas é a ambiental: para cada tonelada produzida, 850 quilos de lixo plástico deixam de chegar aos aterros sanitários e pelo menos 30 árvores ficam de pé. “Além disso, consome menos água e energia na fabricação”, afirma Sati Manrich, especialista que trabalhou na pesquisa na UFSCar. Mais resistente e durável, o papel feito de lixo economiza 20% em tinta durante a impressão e pesa 40% menos.

A engenhosidade dos pesquisadores consistiu em aproveitar todos os tipos de plástico, conhecidos por siglas. Garrafas de refrigerante (PET), frascos de óleo de cozinha (PVC), tapetes infantis (EVA), sacos para alimentos (PP) e sacolas de supermercado (PE) entram juntos num triturador, são higienizados e se transformam em matéria-prima para a Vitopel. O projeto só deslanchou porque as diferentes variedades puderam ser usadas conjuntamente. “Não é viável a separação dos diferentes materiais no processo de coleta seletiva”, afirma José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel. Uma das restrições do papel sintético feito de lixo é o uso em embalagens para alimentos.

A Vitopel planeja produzir 30 mil toneladas por ano do novo papel. Por ironia, a dificuldade hoje tem sido obter quantidades suficientes de detritos. A rede de cooperativas encarregada de recolher o lixo precisa agora garantir dois aspectos essenciais ao processo industrial: a regularidade no fornecimento e o volume.

Autor: Karla Spotorno
Fonte: Época Negócios